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12/04/2009 - 10h21

Vinhoto zero? Onde?

 
 

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Vinhoto zero? Onde?

 

*Sônia Hess e **Patrícia Zerlotti

 

(artigo publicado no jornal Correio do Estado-MS em 12/10/ 2006, p. 2a)

 

O processamento industrial da cana-de-açúcar implica na geração de milhares de litros de líquidos com elevadas concentrações de açucares e substâncias derivadas. Portanto, em qualquer etapa do processo existe o risco de vazamento destes materiais, que podem ocasionar grandes desastres ambientais. Por exemplo, em 29 de setembro de 2003, o rompimento se um tanque de melaço da Usina da Pedra, localizada no município de Serrana/SP, causou a destruição de um trecho de 20 km do Rio Pardo e os efeitos do vazamento foram percebidos a uma distância de 150 km do acidente, atingindo a 13 municípios e comprometendo a água de abastecimento do município de Colômbia/SP. 

Com relação às declarações de que atualmente o vinhoto não representa risco porque é empregado como adubo na plantação de cana, devemos ressaltar que existe um equívoco nesta afirmação. O vinhoto, que sai das usinas de produção de álcool, é utilizado, sim, como adubo, mas somente depois de passar um tempo em lagoas onde é resfriado e estabilizado, já que sai do processo produtivo a uma temperatura superior a 100 graus centígrados. Tanto é assim, que não há usina de álcool sem reservatórios para o vinhoto. Durante a estocagem e transporte, existe o perigo de ocorrerem vazamentos desse material para cursos d`água. 

Quando argumentam que a cultura da cana é menos danosa do que a soja, estão certos sob o ponto de vista da conservação do solo, mas não estão levando em consideração o fato de que, como não é viável  transportar a cana-de-açúcar por longas distâncias, nas regiões onde são implantadas plantações de cana são implantadas também, necessariamente, usinas  para processá-la. Portanto, ao se pensar em cana-de-açúcar há de se pensar, obrigatoriamente, em vinhoto e em outros líquidos com elevado potencial poluidor dos recursos hídricos. 

A implantação de culturas de cana-de-açúcar ou de usinas na bacia do Rio Paraguai representaria um grande risco para o pantanal, já que os cursos d’água que o abastecem têm fluxo lento, dificultando a depuração no caso de ocorrer algum vazamento de líquidos com elevada carga de matéria orgânica, provenientes do processamento industrial da cana-de-açúcar. 

Se, por um lado, atualmente há um grande potencial de crescimento do mercado mundial de álcool e açúcar, por outro lado, deve-se considerar que, se usinas de álcool e açúcar forem instaladas na região de influência do Pantanal, o álcool ali produzido muito provavelmente não deverá gerar créditos de carbono. Isto poderá ocorrer porque, dentre as exigências para a comercialização dos créditos de carbono, há destaque para que a produção seja ambiental e socialmente correta. Dificilmente, os empresários conseguirão convencer as autoridades que fiscalizam o mercado de carbono, de que a implantação de usinas, dentro da bacia do Pantanal, não representa risco sério a este patrimônio da humanidade. 

Portanto, a insistência de políticos e empresários em implantarem usinas de álcool e açúcar na bacia pantaneira poderá render grandes prejuízos para os exportadores destes produtos. Será que todo este risco vale a pena? 

*Professora da UFMS e **Jornalista da ECOA

 

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