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16/05/2011 - 14h02

Caubóis da água

 
 

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Os índios xaraés nunca se esqueceram do encontro com aqueles monstros. Foi em uma tarde de 1543. Em seu relato assustador, eles descreviam os animais como grandes veados. Enormes, mas sem chifres. Seus passos ecoavam surdos como o bater de um tambor. Os guizos espalhados por seus corpos soavam como um exército de ameaçadoras cascavéis. Seus olhos estavam tapados e, mesmo assim, eles enxergavam. O suor descia por seus pescoços e de suas bocas saía uma espuma espessa enquanto roiam um pedaço de metal entre os dentes. Nenhuma lenda dos antepassados jamais evocara a existência de tais monstros.

Mais espantoso: eles levavam em seu dorso homens revestidos de adornos por todo o corpo. Dezenas de guerreiros e idosos foram ao encontro dos recém-chegados. Os brancos e seus amigos indígenas perguntavam sobre a terra, os rios e as águas. Mostravam objetos e amostras de ouro e prata, mas os xaraés quase não escutavam. Seus olhos e ouvidos estavam voltados para as estranhas criaturas de quatro patas que, como os veados, comiam capim. Um guerreiro aproximou-se. Um homem fez um gesto para que tocasse num animal. Temeroso, o índio estendeu a mão, a ponta dos dedos. O bicho estremeceu em um arrepio. O guerreiro recuou apavorado. Então, sorridente, o homem disse: Caballo.

O chefe dessa expedição era o espanhol Álvar Núñez Cabeça de Vaca. Sua aventura havia começado em 1540, em Santa Catarina, onde desembarcou com 400 homens e 26 cavalos e dirigiu-se por terra a Assunção, às margens do rio Paraguai. No caminho, encontrou as cataratas do Iguaçu.

Em terras xaraés, Cabeça de Vaca deparou com uma imensidão de lagoas. O acampamento dos indígenas ficava às margens da Uberaba, cuja superfície cobre mais de 400 quilômetros quadrados. Como os espanhóis tentaram atravessar o Pantanal, seus escritos anunciaram a suposta existência de um grande lago no centro da América do Sul, o mar dos Xaraés, uma lenda aceita por séculos. Alheios a essa referência nos mapas da época, lusitanos e bandeirantes paulistas passaram a chamar a região de Pantanal, nome atestado desde 1727. Mas essa denominação também é imprópria: trata-se de uma planície sujeita a enchentes sazonais, não de um pântano.

Não foi o homem e sim o cavalo quem conquistou o Pantanal. Após os relatos de Cabeça de Vaca, os europeus fizeram sucessivas expedições em busca desse eldorado dos índios xaraés. O fracasso das incursões exploradoras resultou em outro tipo de ocupação: muitos equinos perdidos sobreviveram a seus donos falecidos e reproduziram-se. No sul do continente, o povoamento de Buenos Aires deu origem aos cavalos chimarrões, e milhares de manadas alcançaram o Chaco e o Pantanal, por expansão natural ou levados pelos jesuítas das Missões Guaranis dos Sete Povos. Livres nas pastagens naturais, os cavalos prosperaram em bandos selvagens - dispersos pela planície, são conhecidos até hoje como baguais.

Os bandeirantes e seus rebanhos também se espalharam pelo Mato Grosso, em busca de índios, ouro e prata. Por volta de 1593, eles destruíram a missão espanhola de Santiago de Xerez, próxima ao rio Miranda. Foi necessário mais de um século para se concluir que o eldorado dos índios já fora descoberto e explorado pelos espanhóis na cordilheira dos Andes, em minas como a de Potosí, na Bolívia. Contudo, em 1719, Pascoal Moreira Cabral descobriu ouro em Cuiabá. Com o garimpo, aumentou-se a ocupação da região com novas levas de cavalos e gado, ampliando assim a transformação do Pantanal.

Embora o cavalo ainda aterrorizasse os indígenas, houve a exceção dos kadiwéu-guaicurus. Essa etnia conquistadora e belicosa transformou-o em meio de transporte, em arma para escravizar outras tribos e combater portugueses e espanhóis. Segundo o jesuíta e naturalista José Sanchez Labrador (1717-1798), os guaicurus "em seus cavalos não gastam selas [...] montam em pelo e para isso de um salto estão em cima deles". De acordo com Félix de Azara, comandante das fronteiras do Paraguai de 1781 a 1801, a salvação era que os guaicurus se contentavam com apenas uma presa em cada ataque, "do contrário, não restaria nem um só português em Cuiabá". Um tratado de paz foi assinado entre os guaicurus e a coroa portuguesa em 1791. Na Guerra do Paraguai, em 1864, lutaram em um regimento pantaneiro e atuaram na defesa do Mato Grosso.

Ao conquistar o Pantanal, os animais forjaram uma raça. O atual cavalo pantaneiro tem ascendência reconhecida, resultado de vários cruzamentos de equinos de origem lusitana (berbere, céltico e andaluz), do cavalo árabe e do crioulo argentino, sob pressão de uma seleção natural em que a dinâmica da água foi fundamental. Trata-se de um caso único de cavalo anfíbio.

O equino pantaneiro começa cedo no aprendizado do convívio com as inundações: a capacidade de armazenamento de leite nas tetas das éguas é bem limitada. Assim, ao contrário do bezerro que se alimenta poucas vezes ao dia, o potro mama a toda hora. Por essa razão, acompanha a mãe para onde quer que ela vá e com ela aprende os truques desse convívio. Em sua maioria, os potrinhos nascem no período das cheias. Logo andam na água, enfrentam frio e calor, aprendem a nadar e, sobretudo, a pastar com a cabeça mergulhada, prendendo a respiração.

No Pantanal, durante meses, o capim fica recoberto pela água. Para poder pastar com a cabeça submersa, o potrinho faz exercícios respiratórios que abrem e ampliam o seu peito. A avantajada musculatura peitoral transforma-o em um animal de tração dianteira. Em seu passo peculiar, ele não empurra o corpo com as patas traseiras como os outros cavalos. Ele puxa. É uma enorme vantagem no barro e nos borocotós de tijuco do Pantanal. Suas largas e elásticas narinas ficam quase transparentes na hora de maior esforço, em mais um sinal de sua capacidade respiratória.

Miúdo, frugal, resistente, com casco fechado, peito amplo e garupa pequena e inclinada, o cavalo pantaneiro é, em seu formato, o contrário dos padrões de beleza dos equinos. Contudo, seus aparentes defeitos as águas do Pantanal transformaram em virtudes insuperáveis como instrumento na criação e no manejo de gado. E, quando sua cauda se levanta no galope, ele lembra a elegância de sua herança berbere e árabe.

Entre o cavalo e o céu pantaneiro está o peão. Praticamente não houve escravidão na criação de gado local, ao contrário da agricultura, da mineração e dos serviços domésticos. A pecuária extensiva só podia ser praticada por homens livres, que partiam por longos períodos com o gado. Um escravo não voltaria à fazenda. Nem os bois.

A dinâmica das águas pantaneiras abre e fecha caminhos, amplia e reduz distâncias, oferece e encobre pastagens. Parece paradoxal: no isolamento das fazendas, em meio às pastagens extensivas, o relacionamento humano e as regras de vizinhança formam a base da vida. Todas as fazendas dão passagem a todos, homens e bichos. Basta respeitar uma lei não escrita: porteira fechada deve ficar fechada; porteira aberta deve continuar aberta. Quando cavaleiros e veículos se cruzam, as perguntas são sempre sobre as águas: ainda dá passagem em tal lugar? O recuo já permite passar por determinada vazante?

O peão vive atento às águas. A qualquer prenúncio de cheia ele leva o gado às pastagens mais altas, as cordilheiras. E protege os animais de atoleiros e ataques de onça, além de cuidar de suas enfermidades. Nas cheias maiores, sitiados pelas águas, os bois dependem totalmente dos peões para sobreviver. A extensão dessas áreas elevadas e sua capacidade de acolher o gado sempre definiram o tamanho dos rebanhos nas fazendas.

O gado pantaneiro, também denominado tucura ou cuiabano, descende de bovinos da raça taurina, introduzidos no século 16. Por seleção natural e graças ao manejo, adquiriu resistência a diversas doenças e rusticidade para suportar, em ambiente aberto, uma amplitude térmica de quase 40ºC entre os dias mais quentes do verão e as noites mais frias do inverno, sujeitas a geadas.

É um gado adaptado aos mais diversos tipos de pastagem, cujas palatabilidade e qualidade nutritiva variam muito entre a época da seca e a das cheias. E sobrevive a períodos de escassez de alimentos. Essas características foram mantidas com a introdução do gado zebu e os cruzamentos obtidos ao longo do século 20. Hoje, suas produtividade e rentabilidade são baixas se comparadas aos outros rebanhos do país. O gado pantaneiro, todavia, cumpre um papel ambiental relevante.

Na época da seca, o recuo das águas permite a rebrota de verdes pastagens, consumidas pelo gado. O gás carbônico retirado da atmosfera pelo capim ao crescer é transformado em carne pelos bois e, em parte, retorna à atmosfera através de sua respiração. Apenas uma pequena parte é emitida sob a forma de metano, produzido pelas bactérias do sistema digestivo dos bovinos. Com o declínio recente da pecuária em certas áreas do Pantanal, o capim deixa de ser pastejado pelos bois. E essa não é uma boa notícia.

O boi é o bombeiro do Pantanal. O bicho age na prevenção dos incêndios ao consumir a vegetação cujo destino seria o de se tornar palha seca e comburente. A redução dos rebanhos, portanto, é sinônimo de acúmulo de capim seco, aumento das queimadas e, com o fogo, das emissões de metano e dióxido de carbono, gases de efeito estufa. Se o capim não queima, é ainda pior - ele será recoberto pelas águas. Apodrece e boa parte de sua matéria orgânica vira metano.

Há mais de 300 anos, bovinos e equinos modificaram a vegetação do Pantanal e geraram novos equilíbrios agroambientais. A região é reconhecida como Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O objetivo é o de assegurar a herança de valores do passado. Entre os tesouros do reino das águas, além da fauna e da flora, estão o cavalo, o gado e o homem pantaneiro - e todo seu legado cultural e ecológico. 

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