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16/10/2009 - 13h02

MS é nosso Estado de direito. O Guaicuru é nosso estado de espírito

 
 

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É preciso ter urgência no Brasil para se preservar a cultura e, principalmente, a memória de algumas pessoas. Esquecemos dos fatos com tanta pressa que chega a ser assustador como isso ocorre. Sendo assim, vamos lá: se hoje a Assembléia Legislativa de Mato Grosso do Sul leva o nome de Palácio Guairucus, devemos a homenagem aos nativos cavaleiros, que aqui habitavam, ao historiador campo-grandense Henrique Spengler. A Faculdade Estácio de Sá, de Campo Grande, batizou as novas instalações como Campus Guaicuru. Mais um fruto da militância cultural do Spengler.

Logo após a divisão do Estado, no dia 11 de outubro de 1977, Spengler criou um núcleo em Campo Grande que mais tarde se chamaria Unidade Guaicuru. Em uma casa, que existia na Avenida Calógeras, quase esquina com a Dom Aquino, ele reunia historiadores, amigos, artistas plásticos, universitários, músicos, curiosos, viajantes, poetas, escritores e até os vizinhos em torno de sua grande causa: revelar a verdadeira identidade cultural de Mato Grosso do Sul.

A fase embrionária da Unidade Guaicuru foi, com certeza, a mais fecunda época para a cultura nesse Estado. Com seu carisma e inteligência, Spengler foi o grande aglutinador dos artistas daqui. Todos que se sentissem órfãos, sem saber ao certo qual caminho percorrer, iriam cedo ou tarde parar na casa da Avenida Calógeras. Foi um movimento capaz de dividir a história cultural do Estado em antes e depois da Unidade Guaicuru. Serviu para nós, habitantes do cerrado, como o grito da Semana da Arte Moderna em 1922, em São Paulo.

Não me recordo de ter visto o Spengler subindo em mesas para fazer discursos para bancar o líder. Ele tinha o poder nato da verdadeira liderança. Não era panfletário e sabia respeitar a individualidade de cada um e, até mesmo, a falta de pretensão cultural de muitos que para lá iam simplesmente para estar por lá. O lugar, antes de tudo, era divertido. Muito divertido. 

Spengler foi também um dos mais significativos artistas plásticos desse Estado. Seu tema predileto era inspirado na cultura kadweu. Ele levou para as telas a arte que os nativos originalmente reproduziam em vasos de cerâmica. Foi cult há alguns anos em Campo Grande. O artista plástico que causava uma certa inveja e muita inspiração entre seus pares. Seu estilo fez escola.

Ao encontrá-lo em Coxim, Spengler disse-se que suas pesquisas tinham o objetivo de revelar a identidade de Mato Grosso do Sul a partir de referências regionais primitivas, nativas. O historiador dizia que o tema sempre foi pouco explorado. "No bastidor artístico cultural já existe um conhecimento mediano sobre o assunto, mas na sociedade em geral o tema é praticamente desconhecido. A sociedade ainda ignora nosso processo histórico e por isso mesmo o desvaloriza", avaliou. Tinha como meta reverter esta situação, esclarecendo a  comunidade. "Mato Grosso do Sul é nosso Estado de direito. O Guaicuru é nosso estado de espírito", sintetizava com orgulho.

Como provocador que sou, afirmei que ele tinha o dever de começar a escrever, o quanto antes, um livro sobre o que sabia da origem do sul-mato-grossense. Spengler era também um especialista em história regional. "Henrique, você não pode morrer de uma hora para a outra e levar com você tudo que aprendeu nesses anos de pesquisas. Você precisa escrever, registrar isso", disparei.

Não deu tempo. Na manhã desta sexta-feira, 21 de março de 2003, o corpo de Henrique Spengler foi encontrado dentro de sua própria casa, em Coxim. Spengler, um ser da paz, entra para as estatísticas como mais uma vítima de homicídios no Brasil.

Quem é o seu algoz ou qual foi o motivo do crime bárbaro, covarde e estúpido, não importa. A polícia e a justiça que façam sua parte agora. O fato é que esse ignorante, no sentido mais literal da palavra, retirou do nosso convívio uma pessoa realmente especial. Um ser raro. Spengler sempre foi um homem reservado. Por mais paradoxal que possa parecer, todos o conheciam, o admiravam, mas poucos tiveram o privilégio de conviver com ele.    

Spengler viveu contra a ignorância. Talvez porque soubesse que só a ignorância é capaz de gerar monstros que se acham no direito de tirar a vida de alguém. Ele era apaixonado por história e, durante muitos anos, deu aulas em cursinhos, faculdades e universidades sobre o tema. Lecionou, entre outras cidades, em Campo Grande, Dourados, Ponta Porã e, mais recentemente, em Coxim. Seus alunos eram seus primeiros admiradores. Quando lecionava, Spengler se transformava. As aulas viravam show e tudo, no final, acabava em uma grande festa.

Henrique Spengler tinha 44 anos e era formado em artes plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado, de São Paulo. Cursou história em Campo Grande na antiga Faculdade Católica de Mato Grosso, a Fucmat, hoje Universidade Católica Dom Bosco, a UCDB. Era também pós-graduado em Educação por um convênio entre a antiga Socigran, de Dourados, e a Universidade Braz Cubas, de Mogi das Cruzes, São Paulo. Antes de seguir seu caminho pela arte, abandonou o curso de medicina com o seguinte argumento: "Prefiro ser um grande artista do que mais um médico medíocre".

A violência, infelizmente, se espalha pelo mundo com a mesma rapidez que o esquecimento aniquila nossa memória. Parece que não adianta nem pedir paz. Chegamos a um ponto que nem todo o sangue do mundo é capaz  de saciar a sede da besta.

Vamos sentir falta do Spengler. Hoje, somos todos órfãos da sua alegria, sua generosidade, sua inteligência e capacidade. Estamos definitivamente isolados e não vamos encontrá-lo nunca mais na casa da Unidade Guaicuru ou em Coxim, a cidade que ele escolheu para viver.

"Sou feliz em Coxim. Gosto daqui. Vivo em paz aqui", disse-me, no encontro na terra de Zacarias Mourão. Não dá para saber o quanto Mato Grosso do Sul perde com a sua morte prematura. Mas dá para saber o quanto vamos sentir sua falta. A começar pela sua gargalhada, inconfundível.

Um grande abraço, cara!

Por Paulo Renato Coelho Netto - Jornalista

 

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